https://storage.googleapis.com/movimento_circular/strapi-v4/MC_Regeneracao_blog_1_77be092447/MC_Regeneracao_blog_1_77be092447.png

22/01/2026

Economia circular: caminho fundamental para a regeneração

*Prof. Dr. Edson Grandisoli, embaixador do Movimento Circular

“Existem dois tipos diferentes de mudança: uma que ocorre dentro 
de um determinado sistema, o qual permanece inalterado, 
e outra cuja ocorrência transforma o próprio sistema.”
(Watzlawick et al., 1980)

O conceito de regeneração tem ganhado destaque na literatura e no discurso de diferentes áreas nos últimos anos, como, por exemplo:

  • medicina (regeneração de tecidos);
  • agricultura (agricultura regenerativa);
  • turismo (turismo regenerativo);
  • urbanismo (cidades regenerativas);
  • design (design regenerativo);
  • economia (economia regenerativa).

Apesar de ser um conceito polissêmico, ou seja, ao qual podem ser atribuídos vários significados dependendo de seu uso, existe, na sua raiz, pelo menos um ponto fundamental que independe desse uso: a necessidade de “fazer melhor as coisas” (“doing things better”), ao invés de somente “fazer coisas melhores” (“doing better things”) (Reed, 2007). Esse simples jogo de palavras desloca nosso olhar do “o que estamos fazendo” para “como e por que estamos fazendo”. Ou seja, coloca as escolhas, os propósitos e os processos em primeiro plano, para depois entender o que, materialmente, é realmente necessário e possível dentro dos limites socioambientais.

Pode parecer, para muitos, apenas um jogo interessante de palavras, mas regenerar, dentro desse ponto de vista, na prática, é promover uma transformação profunda na forma como concebemos desenvolvimento, produção, consumo, conservação e sustentabilidade. Regenerar, nessa perspectiva, está conectado a grandes mudanças de paradigma relacionadas à presença e à atuação humana no planeta.

Reed (2007), por exemplo, destaca que a regeneração exige um salto do paradigma “verde”, centrado na eficiência e na mitigação, para um paradigma verdadeiramente sistêmico, que parte da singularidade de cada lugar. Para ele, regenerar é trabalhar com as interdependências entre seres humanos e natureza, reconhecendo que projetos, produtos ou empreendimentos não existem isoladamente, mas sim como manifestações dentro de uma teia dinâmica de relações. Assim, um projeto regenerativo não se limita a ser “menos prejudicial”: ele contribui ativamente para a saúde, a complexidade, a manutenção e a evolução do sistema do qual faz parte.

Esse enfoque valoriza a coevolução, na qual a ideia de que desenvolvimento humano e ecológico são mutuamente dependentes e devem se fortalecer reciprocamente.

Sanford (2018), por sua vez, considera que regenerar implica ativar o potencial das pessoas, das comunidades e das organizações para que se tornem agentes capazes de perceber padrões, intervir criativamente e gerar valor de forma contínua. Assim, a regeneração é menos um conjunto de técnicas e mais uma forma de pensar e agir, baseada em princípios como integralidade, interdependência, singularidade de contexto, corresponsabilidade e aprendizagem contínua. Esse enfoque desloca a responsabilidade da sustentabilidade, baseada em métricas externas e objetivos fixos, para o cultivo interno e conjunto de capacidades, consciência e intenção.

Nesse contexto, voltar a ser parte integrante da natureza e participar de seus ciclos de forma harmônica e interdependente é a grande transformação de paradigma que devemos perseguir nos próximos séculos, buscando conciliar novas visões de desenvolvimento social e econômico. Muito além da técnica e da tecnologia, o foco deve estar em como vamos nos reconciliar com os ambientes e todas as demais formas de vida, perseguindo um futuro ancestral. Se sustentabilidade já parece um horizonte distante, regenerar o coloca ainda mais adiante.

E quais são os caminhos possíveis para essa transformação?

Na verdade, muitos deles já estamos trilhando hoje.

A economia circular, tal como preconizada pela Fundação Ellen MacArthur, por exemplo, tem se tornado um modelo cada vez mais importante dentro da lógica regenerativa. A economia circular propõe substituir o modelo linear de extração–produção–descarte por sistemas de fluxo contínuo de materiais, nos quais produtos, componentes e recursos são mantidos em uso pelo maior tempo possível, imitando os ciclos naturais. O ponto aqui é tornar os ciclos técnico e biológico como sendo um único, buscando uma reorganização profunda da economia para que gere valor para todos, em harmonia com os ciclos da vida. Ou seja, o diálogo entre regeneração e economia circular torna-se especialmente fértil quando se compreende que a circularidade não é apenas uma técnica de gestão de materiais, mas um princípio de reconexão com os padrões regenerativos que sempre ocorreram na natureza.

Sistemas circulares fortalecem solos, restauram a biodiversidade, garantem fluxos de nutrientes, incentivam modelos de compartilhamento e reutilização, estimulam cadeias produtivas mais curtas e colaborativas, fomentando economias locais. Ao mesmo tempo, ao promover o design para reutilização, reciclabilidade, desmontagem e reparação, a economia circular cria as condições materiais para que os sistemas socioeconômicos expressem sua capacidade de renovação, que é justamente o cerne da regeneração.

Quando falamos em regenerar, portanto, estamos tratando de um conceito que envolve um arcabouço filosófico, ético, complexo e sistêmico, enquanto a economia circular oferece metodologias para reorganizar fluxos de energia e matéria em alinhamento com esse arcabouço. 

A regeneração pergunta:

“Que potencial este lugar, esta comunidade, este empreendimento desejam expressar?”.

A Economia Circular responde: 

“Como podemos organizar materiais, processos e modelos de negócios para apoiar esse potencial?”.

Assim, uma economia circular, que colabora para uma economia regenerativa, não apenas minimiza impactos negativos, mas amplia a capacidade de resiliência, diversidade e prosperidade dos sistemas vivos. Ela reconhece que valor não é apenas econômico, mas também histórico, ecológico, social e cultural, e que esses valores se potencializam mutuamente. Em vez de extrair e descartar, busca nutrir e renovar; em vez de linearidade, promove ciclos vivos e interligados; em vez de centralização, favorece redes distribuídas e colaborativas. O resultado é uma visão de futuro em que desenvolvimento humano e saúde planetária não são opostos, mas expressões de um mesmo processo de evolução.

A questão, neste momento da história, deve migrar do “como posso ser mais sustentável?” para o “como posso ser mais regenerativo?”. Parte da resposta a essa questão passa por cuidar, criar e restabelecer laços de confiança, atributo que está em crise há muitas décadas. Mas esse é tema para uma próxima conversa.


IMG_6642.jpg
Profº Drº Edson Grandisoli - embaixador e coordenador pedagógico do Movimento Circular. Foto: Movimento Circular

*Profº Drº Edson Grandisoli
Embaixador do Movimento Circular, é Mestre em Ecologia, Doutor em Educação e Sustentabilidade pela Universidade de São Paulo (USP), Pós-Doutor pelo Programa Cidades Globais (IEA-USP) e especialista em Economia Circular pela UNSCC da ONU. É também co-idealizador do Movimento Escolas pelo Clima, pesquisador na área de Educação e editor adjunto da Revista Ambiente & Sociedade.

Gostou? Compartilhe!
Muti completo
Fale conosco
Movimento Circular logo

Contato

contato@movimentocircular.io

Assine a newsletter

Movimento Circular

Somos o Movimento que envolve cada vez mais pessoas em um mundo cada vez mais Circular. Associe-se

As ações, opiniões e condutas dos parceiros do Movimento Circular não refletem, necessariamente, os valores da iniciativa.

Usamos cookies

São usados para melhorar sua experiência. Ao fechar este banner ou continuar na página, você concorda com o uso de cookies. Veja a política de cookies