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25/02/2026

Economia Circular Tropicalizada: Quando o Desenvolvimento Precisa Falar a Língua do Brasil

Por Fernando Yuri, consultor sênior no eixo de Economia Circular do Plano de Transformação Ecológica do Ministério da Fazenda, pela Fundação Getúlio Vargas (FGV)

A economia circular vem se consolidando como uma estratégia de desenvolvimento que reorganiza a forma como os países produzem, consomem e gerenciam seus recursos. No Brasil, ela passa a ocupar o centro da política econômica, industrial e ambiental, especialmente diante da crise climática, da perda de biodiversidade e das desigualdades socioambientais históricas. Essa transição não ocorre de forma automática; depende de veículos institucionais capazes de transformar princípios em políticas públicas, instrumentos econômicos, geração de empregos verdes e ação concreta nos territórios.

Nesse contexto, o Plano de Transformação Ecológica (PTE), do Ministério da Fazenda, e a Estratégia Nacional de Economia Circular (ENEC), coordenada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), assumem papel estruturante. Juntos, organizam a economia circular como estratégia de Estado, articulando política econômica, industrial, ambiental e social em torno de um novo modelo de desenvolvimento orientado à descarbonização, à geração de renda e ao cumprimento das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDC) assumidas pelo Brasil no Acordo de Paris.

O Plano de Transformação Ecológica – Novo Brasil representa uma inflexão na política econômica nacional ao reconhecer que a transição para uma nova economia exige financiamento, inovação, política industrial sustentável, tecnologias socioindustriais e governança integrada. Ao incorporar a economia circular como eixo estratégico, o PTE reposiciona o tema no centro das decisões macroeconômicas, conectando-o às finanças sustentáveis, à reindustrialização de baixo carbono, à produtividade e à competitividade internacional.

Um dos diferenciais do PTE, como plano econômico-ambiental, é a adoção de um Painel de Monitoramento da Transformação Ecológica, com mais de 200 ações, que permite acompanhar a implementação de seus eixos por meio de indicadores relacionados à redução de emissões, à mobilização de investimentos verdes e à inovação produtiva. Essa lógica de monitoramento, transparência e avaliação de resultados fortalece a capacidade do Estado de induzir investimentos, corrigir rotas e assegurar impactos econômicos, sociais e ambientais mensuráveis.

A economia circular brasileira tem como propósito reorientar o atual modelo produtivo nacional rumo a uma economia sustentável, inovadora e regenerativa, cujo foco está na redução do desperdício, na ampliação do valor econômico dos recursos naturais e no aumento da produtividade de baixo carbono, promovendo uma lógica de desenvolvimento que integra eficiência, inclusão e competitividade. Ao reconhecer a inclusão socioprodutiva das catadoras e dos catadores de materiais reutilizáveis e recicláveis como elemento estruturante da transição, afirma-se o seu papel como agentes essenciais da transformação socioambiental, econômica e territorial. Entre suas metas estão o encerramento humanizado dos lixões, a modernização dos sistemas de gestão de resíduos sólidos e o aperfeiçoamento de instrumentos tributários e econômicos capazes de induzir práticas produtivas sustentáveis e promover a regeneração dos ecossistemas.

Entre suas diretrizes estão o estímulo às compras públicas de bens e serviços circulares, a incorporação de critérios de circularidade à Taxonomia Sustentável Brasileira e a promoção da circularidade industrial, com valorização dos materiais, bens e serviços em sua máxima potencialidade, incluindo a remanufatura e o reuso, o incentivo à ecoeficiência e a prevenção da geração de resíduos, além do fortalecimento da base científica, tecnológica e de inovação, articulando ciência, tecnologia, finanças e políticas industriais sustentáveis.

A Estratégia Nacional de Economia Circular (ENEC) e o Plano de Transformação Ecológica (PTE) oferecem escala econômica e coerência macroestratégica, bem como desenvolvimento regional, e juntos edificam a circularidade nacional. Essas iniciativas articulam princípios, diretrizes e mecanismos capazes de alinhar políticas públicas, investimentos e ações territoriais, conectando a economia circular, a bioeconomia e a inclusão socioprodutiva às distintas realidades do país, promovendo a convergência entre União, estados, municípios, setor produtivo e sociedade civil.

A partir da ENEC, a circularidade se desdobra no Plano Nacional de Economia Circular (PLANEC), constituído por cinco eixos, com destaque para aquele voltado aos instrumentos fiscais, tributários, financeiros e creditícios. Esse arranjo possibilita alinhar a ambição climática, a política industrial verde e a inclusão socioprodutiva, orientando a circularidade para resultados concretos, como a descarbonização, a inovação, o aumento da produtividade verde e a geração de renda.

Ainda assim, o principal desafio brasileiro permanece: a economia circular não pode ser simplesmente importada de modelos globais. O Brasil é um país tropical, biodiverso e desigual. A aplicação acrítica de soluções externas tende a produzir uma circularidade tecnocrática e excludente.
É nesse ponto que a bioeconomia se torna elemento central da tropicalização da economia circular brasileira. Em um país que concentra a maior biodiversidade e uma das maiores potências agrícolas do mundo, o ciclo biológico da circularidade precisa incorporar os ativos da sociobiodiversidade e os sistemas produtivos regenerativos como base para a descarbonização, a geração de renda e a criação de empregos verdes nos territórios.

A bioeconomia confere conteúdo territorial à circularidade. Cadeias baseadas em biomassa, resíduos orgânicos, produtos florestais não madeireiros, agroecologia, bioinsumos e biomateriais permitem integrar regeneração ambiental, inovação produtiva, tecnologias sociais e industriais e desenvolvimento local. Assim, a circularidade tropical se afirma como estratégia de regeneração de ecossistemas, economias e oportunidades de trabalho sustentável.

A integração entre esses temas exige uma abordagem adaptada à realidade brasileira. Ou seja, uma economia circular tropicalizada e brasileira construída a partir de sete elos estruturantes: industrial, criativo, humanizado, justo, inclusivo, ancestral e solidário, que traduzem a circularidade para além da técnica, incorporando cultura, trabalho, justiça social, saberes tradicionais e tecnologias apropriadas às dinâmicas produtivas nacionais.

A economia circular tropicalizada não é um caminho acessório, mas uma escolha estratégica para o futuro do Brasil. Ao integrá-la à política econômica, o país reconhece que desenvolvimento, justiça socioambiental e competitividade caminham juntos. O Plano de Transformação Ecológica e a Estratégia Nacional de Economia Circular são os instrumentos dessa virada. O que está em disputa agora não é a ideia, mas a sua implementação. O desafio é fazê-la chegar aos territórios, orientar decisões estruturantes e produzir resultados concretos para a sociedade brasileira.


*Fernando Yuri
Msc. Fernando Yuri possui experiência em economia circular, resíduos sólidos, bioeconomia e sustentabilidade. Atualmente é consultor sênior no eixo de Economia Circular do Plano de Transformação Ecológica do Ministério da Fazenda, pela Fundação Getulio Vargas (FGV), fundador da CicloBlue Gestão e Soluções Circulares, conselheiro do Conselho Regional de Química e coordenador da Câmara Técnica de Meio Ambiente, além de conselheiro do Conselho Estadual de Meio Ambiente de Goiás (CEMAm). Instagram | Linkedin

 

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