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20/08/2026

Agricultura Espacial: desenvolver alimentos para a Lua e soluções para a Terra

Por Alessandra Fávero

Enquanto o mundo se prepara para uma nova etapa da exploração espacial, pesquisadores brasileiros trabalham para responder a uma pergunta fundamental: como produzir alimentos de forma sustentável na Lua, em Marte ou durante longas viagens espaciais?

A resposta pode estar em uma iniciativa inédita conduzida pela Rede Space Farming Brazil, um consórcio que reúne 24 instituições de pesquisa, universidades, empresas e especialistas de diversas áreas para desenvolver tecnologias voltadas à chamada Agricultura Espacial.

O projeto compõe um protocolo de intenções assinado em 2023 pela Embrapa e Agência Espacial Brasileira (AEB) em prol da participação do Brasil no Programa Artemis, da NASA, que pretende estabelecer bases permanentes na Lua nas próximas décadas e preparar futuras missões tripuladas para Marte. O Brasil aderiu oficialmente aos Acordos Artemis em 2021, passando a integrar o grupo de países envolvidos na construção do futuro da exploração espacial.

A proposta brasileira está estruturada em três etapas. A primeira, atualmente em desenvolvimento, consiste na realização de experimentos em Terra para compreender como plantas e microrganismos respondem a condições semelhantes às encontradas no espaço profundo. A segunda fase prevê a realização de testes em plataformas espaciais, incluindo missões orbitais e experimentos em microgravidade. Já a terceira contempla o cultivo em ambientes fechados destinados à produção de alimentos na Lua ou durante viagens espaciais de longa duração.

Inicialmente, duas culturas estratégicas foram escolhidas: a batata-doce e o grão-de-bico. Essa seleção não ocorreu por acaso. A batata-doce apresenta elevado potencial como fonte de energia devido ao seu alto teor de carboidratos, enquanto o grão-de-bico se destaca como uma importante fonte de proteína vegetal. Juntas, as duas espécies oferecem uma base nutricional capaz de atender parte das necessidades alimentares de futuras tripulações espaciais.

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Fotos: Paula Rodrig/ Divulgação Embrapa Hortaliças

Um dos focos centrais da pesquisa será identificar variedades vegetais capazes de sobreviver e produzir em ambientes extremos. Assim, pretendemos selecionar plantas mais eficientes no uso de água e energia, mais resistentes à radiação ionizante e capazes de manter alta produtividade mesmo sob condições adversas.

Além do melhoramento genético convencional, nossa equipe pretende utilizar a técnica conhecida internacionalmente como melhoramento espacial, que explora o efeito da exposição ao ambiente espacial para gerar nova variabilidade genética. A China, por exemplo, já desenvolveu centenas de cultivares utilizando esse tipo de abordagem. Agora, o Brasil busca construir sua própria trajetória nesse campo emergente da ciência.

Embora o objetivo inicial seja gerar conhecimento para futuras missões lunares, acreditamos  que os maiores impactos poderão ser sentidos aqui na Terra. As tecnologias desenvolvidas poderão ser aplicadas em fazendas verticais como agricultura urbana ou em locais remotos, em regiões sujeitas à escassez ou excesso de água, áreas afetadas pelas mudanças climáticas. Entre as inovações previstas estão sistemas automatizados de produção, sensores inteligentes para monitoramento de estresse vegetal, uso de inteligência artificial no controle ambiental e ambientes agrícolas altamente eficientes no reaproveitamento de água e nutrientes.

Estamos certos de que não existe ambiente mais desafiador para o cultivo de plantas do que o espaço. Por isso, tecnologias capazes de funcionar na Lua tendem a apresentar grande potencial de adaptação para cenários extremos na Terra. Os resultados do programa poderão gerar novas cultivares agrícolas, microrganismos promotores de crescimento, sistemas de produção mais eficientes e uma série de tecnologias derivadas.

Historicamente, programas espaciais já deram origem a milhares de inovações aplicadas ao cotidiano da sociedade. O exemplo mais conhecido é o Programa Apollo, que impulsionou avanços em diversas áreas da ciência e da indústria.

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Fotos: Paula Rodrig/ Divulgação Embrapa Hortaliças

Agora, a expectativa é que a Agricultura Espacial brasileira siga o mesmo caminho

Hoje, parte dessa mobilização científica tem como centro São José dos Campos (SP), principal polo aeroespacial brasileiro. A cidade deverá abrigar a futura Unidade Mista de Pesquisa e Inovação em Agricultura Espacial (UMIPI), fortalecendo a integração entre o setor agropecuário e a indústria espacial nacional.

A Rede Space Farming Brazil já realizou importantes avanços. Em 2025, experimentos com sementes e materiais biológicos foram enviados ao espaço em missões realizadas pelos foguetes New Shepard, da Blue Origin, e Falcon 9, da SpaceX, em parceria com universidades e empresas internacionais.

Essas iniciativas colocam o Brasil entre os países que começam a construir competências próprias em agricultura espacial, ao lado de nações como Estados Unidos, China, Austrália, Itália, Espanha e Países Baixos.

Mais do que preparar alimentos para astronautas, o objetivo é desenvolver soluções capazes de aumentar a segurança alimentar, reduzir o consumo de recursos naturais e ajudar a agricultura a enfrentar um dos maiores desafios do século XXI: produzir mais alimentos em um cenário de mudanças climáticas e crescente pressão sobre os recursos naturais.

Se depender da Rede Space Farming Brazil, o caminho para a Lua poderá começar justamente pelos cultivos para comunidades em zonas urbanas ou em áreas remotas em situação de vulnerabilidade alimentar.


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 Alessandra Fávero -  Possui graduação em Agronomia pela Universidade de Brasília (1997), mestrado em Ciências Biológicas (Genética) pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (1999) e doutorado em Agronomia (Genética e Melhoramento de Plantas) pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (2004). Atualmente é pesquisadora A da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Pecuária Sudeste). Tem experiência na área de recursos genéticos e melhoramento, atuando principalmente nos seguintes temas: hibridações interespecíficas, poliploidização, caracterização fitopatológica, pré-melhoramento, recursos genéticos, amendoim, Paspalum. Coordena o grupo de pesquisa em Agricultura Espacial, a Rede "Space Farming Brazil".


As informações e opiniões apresentadas nesta publicação são de responsabilidade da autora e não refletem, necessariamente, o posicionamento institucional do Movimento Circular.

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