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03/09/2026

Economia Circular para mitigação: sete frentes que já funcionam no Brasil

* Por Flávio de Miranda Ribeiro

Não é novidade, mas é cada vez mais evidente, que as metas do Acordo de Paris não serão cumpridas apenas com a transição energética. Mais ainda, segundo o IPCC mesmo que todos os países signatários cumprissem integralmente suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), a redução de emissões totais seria algo em torno de 12% até 2030, bem abaixo dos 45% considerados necessários para manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C.

Parte do problema está na arquitetura das próprias NDCs, concentradas quase exclusivamente na troca de energia de fontes fósseis por renováveis e nos ganhos de eficiência energética, estratégias prioritárias e fundamentais, mas que juntas endereçam apenas cerca de 55% das emissões globais, segundo dados da Fundação Ellen MacArthur. Os outros 45% são oriundos da forma como produzimos, consumimos e descartamos bens e alimentos - justamente o território de atuação da Economia Circular.

Então, fica a pergunta: o que mais as empresas podem fazer?

Nesse artigo tento direcionar uma resposta, olhando para sete frentes de atuação da Economia Circular que podem inspirar ações de mitigação das emissões de Gases de Efeito Estufa nos produtos e modelos de negócio das empresas.

1- Revisão no projeto (design) dos produtos: Um produto projetado para reduzir emissões desde a concepção já evita boa parte das emissões. Um bom exemplo é a Scania, que desenvolveu toda uma linha de caminhões movidos à biometano - não uma conversão do diesel, mas um projeto próprio que permite reduções de até 90% nas emissões frente ao diesel. Em uma ação que fecha o ciclo, esses veículos já são usados pelas concessionárias de lixo, que transportam os resíduos até instalações que irão gerar biometano, como no grupo Solvi.

2- Redução na geração de resíduos: Outra alternativa circular que reduz fortemente as emissões é aumentar a vida útil dos produtos, reduzindo a geração de resíduos ao evitar a substituição precoce. Para isso, a Electrolux desenvolveu um serviço de antecipação de falha de seus produtos, mediante um robusto investimento em IA que combina dados de histórico do consumidor, características técnicas do equipamento e informações de atendimentos, promovendo diagnósticos remotos que identificam falhas em produtos antes mesmo de uma visita técnica - mudando o foco da manutenção de reativa para preditiva, ampliando a vida útil com inúmeros ganhos ambientais e econômicos.

3- Reuso de embalagens e produtos: Manter uma embalagem em circulação, criando sistemas de reuso em vez de descartá-la após um único uso, evita a fabricação repetida e suas respectivas emissões de ciclo de vida. Um exemplo industrial é da Schütz Vasitex, que por meio do programa Ticket Service, opera um ciclo fechado que recolhe IBCs (contêineres de até 1.000 litros) em todo o país para recondicionamento e reuso. Só em 2023, as empresas participantes do programa reduziram, juntas, mais de 30 mil toneladas de CO2 eq.

4- Substituição de materiais fósseis por biobased: Outra forma de reduzir a pegada de carbono de um produto é substituir matérias-primas fósseis por alternativas de origem biológica. Buscando ampliar o valor recuperado de um resíduo biológico que já era usado para fins energéticos, a Klabin tem atuado em parceria com a Caldic para utilizar a lignina do licor negro, subproduto da fabricação de celulose, na obtenção de antioxidantes para borrachas, substituindo insumos de origem fóssil, e conectando os ciclos biológico e técnico da economia circular. 

5- Recirculação de partes e peças: Quando o reuso direto não é mais possível, remanufaturar produtos, partes ou peças evita nova extração e fabricação a partir do zero. Um exemplo dessa atividade foi o lançamento pela Stellantis da Circular Autopeças, instalação de desmontagem e remanufatura de veículos, de qualquer marca, e que já oferece mais de 180 componentes remanufaturados conforme especificação de fábrica, reduzindo em até 80% o uso de matérias-primas e 50% o consumo de energia frente à peça nova.

6- Recuperar resíduos como matéria-prima: A própria reciclagem pode ser uma ação de mitigação, principalmente quando se recupera os materiais que antes iriam para o aterro para um novo uso. Um caso é a parceria entre DowValgroup, que criaram a O1NE, a primeira embalagem de café desenhada para reciclagem no Brasil. Produzida sem camada metalizada, ela simultaneamente atende aos rigorosos requisitos do setor sem perda de qualidade do produto, e permite a reciclagem total nas atuais estruturas de reciclagem de polietileno.

7- Agricultura regenerativa: Por fim, a Economia Circular também pode beneficiar a produção de alimentos, biocombustíveis e matérias-primas agrícolas. Como exemplo podemos citar a Naturaque desenvolveu para a sua linha Ekos Cacau um sistema de cultivo regenerativo da matérias-prima, que já contribui para a recuperação de mais de 8 mil hectares de floresta na Amazônia, com grande absorção e manutenção de carbono no solo, ao lado da geração de renda para famílias agroextrativistas.

Ao observar esses exemplos, percebemos o Brasil já reúne boa parte dos ingredientes para avançar em uma economia circular de baixo carbono: uma Política Nacional de Resíduos Sólidos consolidada, com sistemas de logística reversa em funcionamento; um enorme potencial da bioeconomia a ser aproveitado; e uma indústria com casos consistentes de sucesso.

Mas falta dar escala e difusão a tudo isso. Nesse sentido, entendo ser fundamental assumir a Economia Circular como linha condutora da NDC brasileira, integrando essas iniciativas pontuais a uma estratégia climática nacional coerente e perene, reconhecendo que reduzir resíduos, repensar produtos e regenerar ecossistemas também são parte de uma agenda climática, com iniciativas passíveis de financiamento pelos mecanismos existentes e benefícios colaterais para a própria economia do país.

Cabe às empresas que lideram essa agenda, aos governos nacional, estaduais e municipais, e às entidades supranacionais assumirem o papel de promotores dessa transição - e nisso o Movimento Circular segue firme cumprido seu papel, de apoiar conexões que induzam a transição para uma Economia Circular de Baixo Carbono.


5 anos impulsionando a Economia Circular na América Latina (5).png

Professor, pesquisador e consultor em Economia Circular, Logística Reversa e Regulação Ambiental Empresarial. Embaixador do Movimento Circular e Conselheiro para Economia Circular do Pacto Global da ONU no Brasil.
 

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