artigo ·Indústria·Alimentação
A circularidade na cadeia de fertilizantes: desafios e oportunidades
Mario Fernando Porto, da Petrobras, mostra caminhos para levar a Economia Circular à produção de fertilizantes, do lixo urbano que vira hidrogênio verde ao adubo que rende mais no solo.
Mario Fernando Porto, da Petrobras· · 4 min de leitura
*Por Mario Fernando Porto, da Petrobras
A produção de alimentos, de um modo geral, já adota conceitos de circularidade há bastante tempo, mesmo que este conceito não estivesse claro. Você por acaso conhece alguém que faz compostagem de lixo orgânico doméstico, ou alguém que tem uma pequena lavoura e usa esterco como fertilizante? Se a resposta for sim, saiba que os conceitos de circularidade e de Economia circular estão presentes nestes exemplos. Mas esse tipo de reutilização / reciclagem funciona para pequenas produções.
Quando falamos em grandes áreas cultivadas, muitas delas de monoculturas como soja, milho, café, entre outras, soluções de adubação precisam ser em maior escala e mais robustas. Neste contexto é que normalmente se usa micro e macronutrientes, além de fertilizantes chamados de NPK (nitrogênio, fósforo e potássio). Estes compostos são os fertilizantes mais utilizados no Brasil e no mundo.
O consumo de NPK no Brasil, no período de 1977 até 2023, cresceu à uma taxa anual de quase 4%. Ah, ok. E qual é o problema? O problema é que estes compostos são produzidos, via de regra, usando matérias-primas não renováveis (gás natural, rochas fosfáticas e potássicas). Essas matérias-primas passam por transformações químicas complexas para se produzir fertilizantes úteis, através de processos intensivos em energia e água.
Com o aumento da população mundial, a necessidade por alimento também aumenta e a quantidade de fertilizantes necessários cresce também de forma proporcional. Se o processo de produção não evoluir do ponto de vista de sustentabilidade, é bem provável que em algum momento o processo cause mais malefícios para a humanidade do que benefícios.
Novos caminhos para a produção de fertilizantes
O Plano Nacional de Fertilizantes 2050 (PNF 2050) introduz o conceito de circularidade para grandes produções agrícolas em uma de suas diretrizes: “Desenvolver modelos de adesão integral da indústria de nutrição de plantas do Brasil nos parâmetros ESG e assim estimular grande amplitude na aderência da agricultura em práticas de sustentabilidade, com adoção de conceitos de Economia circular e acesso ao mercado de carbono.”
Pois bem, o desafio está endereçado! E como fazer frente a ele e aproveitar as oportunidades que surgirão desse novo modelo? O primeiro passo, sem dúvida, é aumentar a eficiência das unidades de produção de fertilizantes, seja pela adoção de novas tecnologias ou saltos incrementais na redução e reutilização de insumos importantes, como a água por exemplo.
O uso de matérias-primas alternativas pode alavancar conceitos de economia circular ao mesmo tempo que permite a redução da pegada de carbono dos processos de produção. Lembra da compostagem de resíduo doméstico?? E se fizermos isso em grande escala? Ao invés de usarmos aterros sanitários, pode-se usar resíduos domésticos para a geração de energia elétrica (tecnologia já usada em outros países a mais de 30 anos), que por sua vez pode ser usada para gerar hidrogênio verde. Esse hidrogênio verde pode, por exemplo, ser utilizado na fabricação de ureia, produzindo amônia e ureia com baixíssima pegada de carbono, contribuindo não só para a reciclagem e reuso econômico do lixo, mas também contribuiria para diminuir a emissão de carbono da cadeia de produção de alimentos como um todo.
Muitas outras possibilidades de matérias-primas, além do lixo, surgem como possíveis fontes para a indústria de fertilizantes se tornar mais sustentável. Entre elas estão o etanol, biomassas em geral, óleos vegetais, etc.
Outra vertente que tem sido muito estudada é aumentar a eficiência dos fertilizantes quando aplicados no solo. Ainda hoje, boa parte do que é utilizado na adubação de grandes culturas se perde por lixiviação ou outros processos, gerando desperdício e custos desnecessários na cadeia produtiva. O investimento em tecnologias para desenvolvimento de fertilizantes de liberação prolongada, ou fertilizantes mais eficazes e que exijam menor quantidade por hectare também estão na linha de frente das pesquisas.
Pela escala do uso de fertilizantes, existem muitos desafios à implantação de maneiras mais sustentáveis de produção e utilização. Os principais deles são econômicos (custo alto de novas tecnologias), logísticos e de infraestrutura.
Em resumo, a indústria de fertilizantes, sobretudo em uma potência agrícola como o Brasil, precisa estar atenta aos conceitos de economia circular, não só visando processos produtivos mais sustentáveis e fertilizantes mais eficientes, mas no final das contas buscando maior competitividade em um mundo onde as questões ambientais estão cada vez mais evidentes e urgentes.
As informações e opiniões apresentadas nesta publicação são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, o posicionamento institucional do Movimento Circular.

*Engenheiro químico, com mestrado em Química, na área de físico-química de polímeros, MBA em Gestão Empresarial pela FGV e MBA Executivo pela Fundação Dom Cabral. Atuou por 26 anos no setor de refino de petróleo, com foco em otimização de processos e aumento da rentabilidade. Atualmente, trabalha na área de produção de fertilizantes, com especial interesse no desenvolvimento de novos processos produtivos e na identificação de oportunidades para otimizar processos existentes.
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citar este artigo
MARIO FERNANDO PORTO, DA PETROBRAS. A circularidade na cadeia de fertilizantes: desafios e oportunidades. Movimento Circular, 23 de outubro de 2026. Disponível em: https://movimentocircular.io/blog/a-circularidade-na-cadeia-de-fertilizantes-desafios-e-oportunidades.
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