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03/11/2021

Valor Econômico: a economia circular

Olha que incrível! O Valor Econômico publicou uma matéria super bacana sobre economia circular e as oportunidades criadas por esse novo jeito de funcionar. Confira:

Muito além da reciclagem, a economia circular

Mudança pode aumentar a criação de valor e de empregos de recursos já existentes

Por Teresa Rossi e Sergio Leitão

Os alarmantes sinais de mudança climática e de esgotamento dos recursos naturais, com efeitos sobre a produção de alimentos, a geração de energia e as próprias condições de vida na Terra, chamam atenção para um desafio: é preciso abandonar, e logo, o mundo da obsolescência planejada e dos produtos descartáveis. O termo “economia circular” já inspira novos modelos de negócios e promete tornar-se lugar comum nas cadeias de valor que se conformarão nas próximas décadas. Traz, como toda grande inovação, tremendos desafios. E grandes oportunidades financeiras e comerciais.

O “circular”, no caso, se opõe à ideia atual de “economia linear”, baseada na produção, consumo e descarte. Mais que algumas práticas modernas e necessárias, como reúso, otimização de processos, reciclagem ou remanufatura, a economia circular traz uma nova maneira de produzir e consumir produtos e serviços, de forma a reduzir ou diretamente eliminar resíduos, poluição e emissões de gases de efeito estufa que aceleram as mudanças climáticas.

Além do esforço para integrar os diferentes atores da cadeia produtiva, a nova visão de negócios incorporada à economia circular também substitui um paradigma: em lugar da propriedade de um produto, em muitos casos, adota-se o uso compartilhado, na forma de serviço, como já existe no transporte urbano, por exemplo, com o aluguel de bicicletas e carros elétricos.

Do setor de embalagens aos de têxteis e construção civil, são muitas as oportunidades no Brasil para adoção desse novo modo de organizar a produção e o consumo.

Essa mudança, além de fazer sentido econômico, pode ser um estímulo à maior competitividade nas empresas. Com o redesenho de produtos e processos de fabricação acompanhado de novas formas de manutenção, reaproveitamento e uso, é possível fazer render os recursos já existentes e aumentar sua capacidade de gerar valor - e até empregos.

Os princípios dessa nova forma de pensar a economia são três: eliminar poluição e outros resíduos; expandir o ciclo de vida dos produtos e materiais; e regenerar os ecossistemas. É imperativo evitar a destruição de valor, reintegrando recursos naturais e insumos utilizados às cadeias de produção e criando mercados para essas matérias primas secundárias. Já são numerosos os estudos mostrando o potencial de aumento de rentabilidade e de redução de riscos para empresas e financiadores que optam pela economia circular. Três anos antes da aprovação de uma lei pioneira sobre o assunto na União Europeia, um dos mais profundos desses estudos constatou o gigantesco desperdício que acompanha a geração de riqueza no mundo desenvolvido: a Europa, em 2015, jogava no lixo ou no incinerador, após um período limitado de uso, 95 % do valor do material e do custo de energia necessários para os produtos consumidos por seus cidadãos, e recuperava apenas 5% com reciclagem e uso de resíduos na produção de energia.

Elaborado pela Fundação Ellen-McArthur e pelo Centro McKinsey para Negócios e Economia Ambiental, o estudo mostrou que a economia circular permitiria aumentar a produtividade europeia em 3% anuais, com o equivalente a € 600 bilhões em economia de recursos e ganhos paralelos equivalentes a € 1,2 trilhão. O PIB europeu, com isso, teria crescimento adicional de sete pontos percentuais, em 15 anos.

Os números dão a dimensão das oportunidades de negócio, inovação e incremento tecnológico envolvidos nessa transformação, que já interessa ao mercado. Fundos europeus dedicados integral ou parcialmente a ativos com foco na economia circular já viram suas carteiras de investimentos passarem de US$ 300 milhões para US$ 1,2 trilhão, desde 2020. Os especialistas da Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa ligada à Universidade Federal de Minas Gerais (Fundep-UFMG) lembram que a China, outra pioneira em iniciativas nesse campo, hoje consegue, com um plano de economia circular, recuperar 20% de seus rejeitos de mineração e transformá-los em produto competitivo nos mercados internacionais.

No Brasil, uma das áreas de grande potencial é o setor têxtil, com desenvolvimento de tecidos e confecções com maior ciclo de vida e reaproveitamento. Deveríamos estar mais avançados nesse terreno. Além de impulsionar novas tecnologias e poupar recursos, protegendo o setor produtivo dos ciclos de alta de preços das matérias primas, a aplicação da economia circular começa a ser reconhecida por seu potencial na redução de riscos de investimento.

Um estudo recente da tradicional Universidade Bocconi, de Milão, com empresas europeias em 14 indústrias mostrou que, quanto maior a adesão da companhia aos princípios da economia circular, menor o risco de inadimplência e maior a relação de retorno versus riscos em suas ações. Essas empresas, ao modernizarem processos e produtos, reduziram riscos por tornar o crescimento dissociado do consumo de recursos (o chamado decoupling); usar modelos mais diversificados de negócios; e antecipar-se a regulamentações mais estritas ou mudanças nas preferências dos consumidores.

A Europa, onde o debate está avançado, já adotou regulações e incentivos para promover o uso mais eficiente dos recursos naturais. No Brasil, como em toda a América Latina, os desafios dessa transição são maiores porque aqui se concentra parte considerável da extração dos recursos naturais exportados para os países mais desenvolvidos. Ou seja, não precisamos só promover o uso mais eficiente dos recursos naturais, mas também encontrar formas de extraí-los que permitam a regeneração dos ecossistemas.

Enquanto marcamos passo nesse debate, o Chile comanda a agenda da economia circular na região, ao buscar, para sua indústria de mineração, novas tecnologias de extração e reaproveitamento de dejetos. O Brasil precisa dar prioridade ao tema na agenda do governo e de potenciais investidores. Os benefícios são evidentes e são claros os desafios da economia brasileira, que vão muito além de nossos já consideráveis problemas conjunturais e cobram ação urgente.

Teresa Rossi e Sergio Leitão são, respectivamente, coordenadora de Projetos e diretor executivo do Instituto Escolhas

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