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30/01/2026

Não existe Economia Circular sem Economia de Dados

*Por Marcus William Oliveira, CEO da Circular Brain

Em 2025, a Circular Brain processou mais de 80 mil toneladas de resíduos eletroeletrônicos no Brasil. Foram milhares de coletas realizadas em domicílios, percorrendo 439 mil quilômetros por todo país, além da instalação de 1.338 novos pontos de entrega, que se somaram a uma rede com mais de 17 mil pontos ativos em 100% dos municípios do Brasil. Nesse mesmo período, a plataforma de educação ambiental Multiplicadores Circulare ultrapassou 400 inscritos, e os conteúdos relacionados à destinação responsável de eletrônicos impactaram mais de 180 milhões de pessoas através de 1.413 matérias na imprensa.

Esses números ajudam a dimensionar a escala que processos como a coleta seletiva, a reciclagem e a reutilização, etapas fundamentais da Economia Circular, podem alcançar quando processos, dados e tecnologia caminham juntos. Mas eles também escondem algo importante: essa jornada não começou com plataformas digitais, dashboards ou grandes volumes. Ela começou com uma pergunta muito mais simples: “Como provar que estamos fazendo a coisa certa?”

No final de 2008, tomei uma decisão que mudou completamente o rumo da minha vida profissional. Naquele momento, eu cursava doutorado em Neurociência no Trinity College Institute of Neuroscience, em Dublin, na Irlanda. Meu pai já trabalhava há mais de 15 anos com reciclagem, mas a empresa que ele havia acabado de iniciar enfrentava um grande desafio logo em seu nascimento. Em meio à crise financeira global que se iniciava nos Estados Unidos, decidi voltar ao Brasil para ajudar a estruturar e tocar esse novo negócio, apesar de não ter experiência prévia em gestão.

Em 2009, o cenário era particularmente desafiador. Os metais, que tradicionalmente sustentavam a operação, perderam valor de mercado, mas ao mesmo tempo, como acontece em momentos de incerteza até hoje, o ouro se valorizou rapidamente. O modelo econômico que funcionava até então deixou de fazer sentido, mas foi nesse contexto que a reciclagem de produtos eletroeletrônicos passou a se mostrar estratégica. Não apenas pelo valor dos materiais, mas pela complexidade do processo, pela necessidade de tratamento adequado e pelo impacto socioambiental envolvido. Ali começava, de fato, a minha jornada pelo  mundo da reciclagem de eletrônicos, ainda em seus primórdios no Brasil.

Talvez pela minha formação acadêmica, meu incômodo sempre foi claro: eu não queria que a empresa fosse apenas um broker de commodities, mas o objetivo era atuar como um prestador de serviços capaz de gerar valor socioambiental real por meio da destinação responsável desses resíduos.

Isso nos levou, desde o início, a investir em licenciamento, certificação e estrutura operacional para atender grandes clientes com responsabilidade, transparência e conformidade socioambiental.

Em 2011, criei o que foi, até onde se tem registro, o primeiro relatório de rastreabilidade de resíduos eletrônicos do Brasil. Os produtos eram processados de forma segregada e cada fração tinha sua destinação registrada de maneira detalhada, ainda de forma manual.

Mas por que adicionar uma camada de trabalho e complexidade se o mercado não pedia isso?

Porque já naquele momento estava claro para mim que a rastreabilidade é a base da gestão de resíduos. Sem saber exatamente o que entra, como é processado e para onde vai, não existe gestão, apenas operação, o que aumenta o risco significativamente para os tomadores do serviço. Com o tempo, esse conceito evoluiu e hoje se tornou um padrão mínimo de mercado.

Da rastreabilidade física à rastreabilidade digital

O princípio não mudou. O que mudou foi a escala. À medida que a reciclagem evoluiu para o conceito de Circularidade, envolvendo cadeias de suprimentos globais, metas regulatórias e compromissos corporativos, a rastreabilidade física deixou de ser suficiente e tornou-se necessária transformar processos em fluxos de dados, registros operacionais em evidência digital e cadeias produtivas em sistemas rastreáveis de ponta a ponta.

Durante muito tempo, falamos de Economia Circular como algo essencialmente físico: produtos, materiais, resíduos, reciclagem, reuso, logística reversa. Tudo isso continua sendo verdade, mas já não basta.

A circularidade só se torna real quando pode ser mensurada e comprovada. E, no mundo atual, comprovação é sinônimo de informação confiável e auditável.

É por isso que a afirmação que vem ganhando força em fóruns internacionais e estudos técnicos faz tanto sentido: não existe Economia Circular sem Economia de Dados.

Mas, quando falamos em Economia de Dados aplicada à Economia Circular, uma pergunta que pode surgir é: se isso é tão importante, por que avançamos aparentemente tão pouco?

Minha leitura é que, nos últimos anos, o foco precisou ser outro. Foi necessário resolver o básico: estruturar operações, ganhar eficiência logística, construir capacidade de processamento e garantir que os resíduos fossem, de fato, tratados de forma adequada. Esse esforço continua sendo essencial até hoje, pois sem capacidade operacional, não existe circularidade possível, mas ficou claro que isso não basta.

A Economia de Dados exige um salto diferente. Ela depende da integração de toda a cadeia de valor, não apenas da indústria. Envolve operadores logísticos, distribuidores, varejistas e, principalmente, consumidores. Significa conectar dados ao longo de fluxos que historicamente nunca conversaram entre si. 

Esse tipo de transformação traz desafios reais. Há questões culturais envolvidas, porque existe a percepção de risco no compartilhamento de dados, que fazem as pessoas reterem informação. Há desafios financeiros, porque os investimentos nem sempre geram retorno imediato. E há desafios operacionais, porque integrar sistemas, processos e responsabilidades ao longo da cadeia não é trivial.

Por isso, a evolução tem sido gradual. O problema é que o contexto atual já não permite avanços tímidos. A urgência climática e a pressão regulatória exigem decisões mais ousadas, inclusive a disposição de abrir mão de resultados de curto prazo para construir modelos mais resilientes, transparentes e alinhados com a nova economia que está se formando, como aderir à tecnologias emergentes.

Um exemplo dessas tecnologias é o Digital Twin, que permite que produtos e materiais sejam acompanhados ao longo de toda a sua vida útil, criando uma linha do tempo digital que registra fabricação, uso, reparo, recondicionamento, reuso e reciclagem.

Cada interação gera dados. E esses dados constroem algo essencial: rastreabilidade contínua e, reafirmo: sem rastreabilidade, não existe circularidade mensurável.

Nesse contexto, o Digital Product Passport (DPP) surge como uma ferramenta estruturante. Mais do que um documento, ele é uma camada de dados padronizada, capaz de conectar produção, logística, consumo, reciclagem e regulação.
Estudos do SITRA, com contribuições de especialistas como Marja-Liisa Niinikoski, reforçam que a circularidade em escala só é possível quando os dados acompanham os produtos ao longo de toda a sua vida, até retornarem ao início da cadeia como matéria-prima rastreada, pegada de carbono, entre outros.

Na mesma linha, análises da Bain & Company, mostram como dados de ciclo de vida habilitam novos modelos de negócio, ampliam oportunidades para diferentes atores sociais, aumentam a eficiência das cadeias reversas e ampliam a transparência para o consumidor.

A Economia Circular não é uma ideia nova. Há anos existem bons projetos, pilotos bem-intencionados e iniciativas relevantes espalhadas pelo mundo. O que mudou e vem mudando rapidamente é o nível de urgência em sua implementação. As pressões climáticas, a escassez de recursos, a instabilidade das cadeias globais e o aumento do custo socioambiental do modelo linear deixaram claro que o tempo deixou de ser um aliado. Adiar essa transição passou a ter consequências reais, econômicas, sociais e ambientais.

Nesse contexto, a Economia Circular deixa de ser apenas uma boa prática ou um diferencial competitivo e passa a ser uma necessidade estrutural. A pergunta já não é mais se devemos avançar nessa direção, mas como fazer isso de forma consistente, escalável e confiável.

É aqui que a conversa muda de patamar.

Projetos de Economia Circular existem, mas o que realmente diferencia o momento atual é a possibilidade de escala, e essa escala depende diretamente da digitalização da informação. Sem dados, tudo vira narrativa: faltam métricas confiáveis, comparações possíveis e, principalmente, confiança sistêmica, para evitar greenwashing. Com dados, a circularidade deixa de ser um conceito abstrato e passa a ser algo mensurável, verificável e comparável ao longo do tempo.

É nesse ponto que a Economia Circular encontra a Economia Digital e de Dados. A transição que estamos vivendo não é apenas uma mudança de design ou de materiais, mas uma mudança mais profunda: de infraestrutura informacional. Produtos, materiais e processos precisam ser acompanhados por dados ao longo de todo o seu ciclo de vida, criando evidências concretas de circularidade.

No fim das contas, a Economia Circular só cumpre sua promessa quando possui um lastro sólido e é exatamente por isso que não existe, e não vai existir, Economia Circular sem Economia de Dados.


*Marcus William Oliveira 
É fundador e CEO da Circular Brain, especializada em soluções digitais para Economia Circular. Biomédico com mestrado pela USP e especialista em Estratégias Disruptivas pela Harvard. Com ampla experiência em sustentabilidade e reciclagem, MBA pela FGV, palestrou em eventos internacionais e contribuiu para políticas de resíduos no Brasil. Instagram | LinkedIn.

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