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05/06/2026

Longe dos holofotes: quando a Economia Circular vira arte

*Por Marina Serpa

Quando falamos em Economia Circular, é comum que a conversa comece pelo design do produto. Como prolongar a vida útil dos materiais? Como manter recursos em circulação? Como regenerar ecossistemas? Como construir cadeias produtivas mais resilientes? 

Ao assistir ao lançamento dos filmes “Longe dos Holofotes” e “Catadores”, no dia 7 de maio,  no Theatro São Pedro em São Paulo, tive dois insights.

O primeiro é que a arte tem a capacidade de despertar algo adormecido e até mesmo anestesiado pela velocidade e voracidade das nossas rotinas.

O segundo insight é que a circularidade começa muito antes do design do produto. Ao longo deste artigo, compartilho como os filmes me levaram a essa reflexão. 

Os documentários foram lançados pela VEJA em parceria com a La Blogothèque e o diretor Jérémie Battaglia. Não foram feitos para lançar nenhum produto. A produção dos filmes volta os holofotes para quem normalmente permanece invisível: agricultores familiares, extrativistas nativos(as) da floresta e catadores que sustentam as cadeias produtivas por trás de um dos tênis mais desejados do mundo.

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A sessão foi aberta pelos cofundadores da VEJA, François-Ghislain Morillion e Sébastien Kopp, que lembraram que, embora a marca seja identificada como francesa, sua história foi construída a partir da brasilidade, dos territórios e das pessoas que compõem suas cadeias produtivas. 

Ainda na abertura, François e Sébastien explicaram que nunca fez sentido investir milhões para associar seus produtos a atletas, artistas ou influenciadores. Enquanto grande parte da indústria investe em celebridades, a VEJA optou por investir no desenvolvimento de suas cadeias produtivas, acompanhando agricultores familiares, extrativistas e catadores em diferentes territórios brasileiros.

Foi dessa escolha que nasceram os filmes. Em vez de colocar o tênis no centro da narrativa, eles voltaram os holofotes para aqueles que normalmente permanecem invisíveis.

“É a primeira vez em 20 anos que documentamos de verdade, por meio de um filme, o que está acontecendo no Brasil. Não havia nenhuma chance de cairmos em algum tipo de comunicação corporativa. Então, criamos este filme. Ele acabou se tornando um OVNI cultural.“ - Sébastien Kopp, cofundador da VEJA

Em 2023, a VEJA e  La Blogothèque, um coletivo audiovisual francês, conhecido por trabalhar com artistas mais do que com marcas, deram carta branca ao diretor Jérémie Battaglia. O desafio não era mostrar um produto, mas contar a história das pessoas na base dessa cadeia.

Durante meses, a equipe mergulhou nos bastidores de um ecossistema complexo e profundamente humano. Conheceram Irisnete, que extrai látex na floresta amazônica. Encontraram Osvaldo, cuja família cultiva algodão há gerações no semiárido brasileiro. Conviveram com Luênia, liderança da Rede Sul de Catadores de MG, uma rede de cooperativas de catadores que recuperam materiais recicláveis. 

A sensibilidade de Jérémie Battaglia, acostumado a dirigir filmes de rockstars como Sir Paul McCartney, transformou esses documentários em obras de arte. Pela lente do diretor, agricultores familiares, seringueiras e catadores ocuparam um espaço normalmente reservado a celebridades e protagonizaram histórias reais que ajudam a explicar o sucesso do tênis em diferentes partes do planeta. 

Sob a perspectiva da economia circular, costumamos dizer que ela começa pelo design do produto. Mas esses documentários me convenceram de que ela começa antes. A economia circular começa quando as lideranças de uma empresa decidem o que e quem desejam valorizar, quais relações desejam fortalecer e quais histórias consideram dignas de ser contadas. 

Economia Circular começa a partir de um propósito

Foi aqui que cheguei à conclusão de que a Economia Circular começa a partir de um propósito. “Longe dos Holofotes” e “Catadores” transpiram um dos três princípios do Cradle to Cradle®, considerado por muitos a "bíblia" da Economia Circular: a celebração da diversidade e dos ecossistemas. Um princípio que propõe respeitar territórios, fortalecer a diversidade cultural e promover justiça social ao longo das cadeias produtivas.

Diferentemente das abordagens tradicionais focadas apenas na redução de danos, o Cradle to Cradle propõe uma pergunta mais profunda: qual é a intenção por trás daquilo que criamos?

É justamente aqui que os dois insights, aos quais me referi no início deste artigo, convergem. A arte nos convida a enxergar pessoas e as suas histórias que sequer vislumbramos no nosso dia a dia. A Economia Circular nos convida a perceber, dentro e fora da cadeia produtiva, o valor dessas pessoas.

Mais do que desenhar produtos circulares, trata-se de desenhar relações capazes de gerar benefícios para todos os atores envolvidos.

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Ao longo do filme, essa lógica se materializa nas histórias de Irisnete, Osvaldo e Luênia. Embora atuem em cadeias distintas (borracha, algodão e PET), todos compartilham algo em comum: deixaram de ser vistos apenas como fornecedores de matéria-prima e passaram a ser reconhecidos como parte essencial da construção de valor.

Da Amazônia ao semiárido, passando pelos centros urbanos, Irisnete, Osvaldo e Luênia representam a diversidade humana que sustenta a circularidade dos materiais.

Talvez essa seja a verdadeira inovação apresentada por esses documentários produzidos com um olhar cuidadoso e artístico. Não foi a tecnologia. Não foi o produto. Mas a capacidade de enxergar pessoas e suas histórias onde o mercado tradicional costuma enxergar apenas insumos.

Ao dar visibilidade a quem extrai o látex, cultiva o algodão e recupera materiais recicláveis, a VEJA nos lembra que a circularidade não depende apenas do fluxo de materiais, mas também, e principalmente, da qualidade das relações humanas que a sustentam.
E o que a Economia Circular explica pela razão, a arte traduz e alcança pela emoção. Nesse sentido, “Longe dos Holofotes” e “Catadores” revelam que a economia circular começa muito antes do design de produto. A economia circular começa com as intenções que definirão o design de produtos e serviços.

No próximo dia 18 de junho, às 18h, a REDE SUL DE CATADORES DE MG e a VEJA receberão convidados(as) no Espaço Cultural da Urca, em Poços de Caldas, para a exibição dos filmes Longe dos Holofotes e Catadores. 


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*Marina Serpa
É Embaixadora Institucional do Movimento Circular, mentora da Rede Sul de Catadores de MG e Secretária Executiva da Frente Parlamentar da Mulher Catadora. Advanced Facilitator & Instructor do Mural do Clima. Especialista em gestão cultural e de RH, atua na interseção entre a economia circular, as mudanças climáticas e a transição ecológica justa, com foco na inclusão de catadores nas cadeias de valor.

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