
22/04/2026
A Terra é circular
Dr. Edson Grandisoli
Que lindo momento para estar vivo.
A missão Artemis II nos devolve a possibilidade de revisitar uma das perspectivas mais transformadoras já experimentadas por seres humanos: a de observar a Terra do espaço profundo. Desde os tempos das missões Apollo, imagens do nosso planeta suspenso no vazio mudaram profundamente a forma como enxergamos o mundo e ajudaram a criar uma legião de ambientalistas. Ao ver a Terra como um pequeno ponto azul, sem fronteiras visíveis e envolto por uma fina camada de atmosfera, fica evidente o quanto nosso planeta é belo e incrivelmente frágil.
Essa nova oportunidade de olhar para nossa casa a partir do espaço acontece em sintonia com a proposta do Dia da Terra (22 de abril), uma das principais datas do calendário ambiental global. Em 2026, o tema escolhido para a celebração é “Nosso Poder, Nosso Planeta”, um convite para refletir sobre o papel coletivo da humanidade na proteção dos ambientes, das pessoas e de todas as demais formas de vida que compartilham este planeta conosco.
O tema enfatiza que as transformações necessárias para enfrentar os desafios socioambientais (com destaque para as mudanças climáticas, a perda de biodiversidade e a poluição), depende das escolhas que fazemos todos os dias e, em contrapartida, lembrar que nem todos têm as mesmas condições ou oportunidades de escolher. Trata-se de ampliar nossa visão para além de nós mesmos, entendendo que nosso poder não está apenas nas tecnologias que nos permitem viajar até a Lua ou observar a Terra de longe, por exemplo, mas também na capacidade de reorganizarmos nossas atividades para respeitar os limites do planeta.
Na mesma sintonia, a visão da Terra vista do espaço traz à tona outra conexão profunda: a circularidade.
Pensar nos processos humanos inspirados pelos processos naturais está na base do conceito de Economia Circular. Diferente do modelo econômico linear baseado em extrair, produzir, consumir e descartar como se não houvesse amanhã, a economia circular propõe um sistema inspirado nos ciclos naturais da própria Terra.
Folhas caem das árvores, se decompõem no solo, alimentam microrganismos e voltam a nutrir novas plantas. A água evapora, forma nuvens, precipita e retorna aos rios e oceanos. Na natureza, praticamente nada se perde. A matéria circula continuamente em sistemas interdependentes, mantendo o equilíbrio fundamental à perpetuidade dos processos físicos e biológicos. Nessa perspectiva de que ciclo técnico e biológico devem coexistir em harmonia, circularidade abraça o conceito de regeneração, outra característica essencial de economias verdadeiramente circulares, que não apenas reduzem impactos, mas também ajudam a preservar e fortalecer os sistemas que sustentam a vida.
Ao observarmos a Terra do espaço, percebemos também que todos os seus ciclos acontecem dentro de um sistema finito e interconectado. Não existe “fora” para onde possamos enviar nossos resíduos ou de onde possamos extrair recursos infinitamente. Essa percepção nos convida a repensar profundamente nossos modelos de desenvolvimento, aproximando nossas atividades dos princípios de equilíbrio e renovação presentes nos sistemas naturais.
Mais do que uma mudança técnica ou tecnológica, trata-se de uma mudança cultural profunda. Envolve rever valores, questionar padrões de consumo, repensar a forma como produzimos conhecimento e como organizamos nossas sociedades. Nesse contexto, a educação para a circularidade tem um papel central. É por meio dela que ampliamos repertórios, desenvolvemos pensamento crítico e construímos novas formas de relação com o mundo.
A educação para a circularidade, especialmente quando integrada de forma transversal aos currículos, permite que crianças, jovens e educadores compreendam esses ciclos e se reconheçam como parte deles. Não se trata apenas de aprender sobre o meio ambiente, mas de aprender a partir e com o ambiente, reconhecendo suas dinâmicas, limites e possibilidades. Trata-se de formar pessoas capazes de agir com responsabilidade, empatia e visão sistêmica diante dos desafios contemporâneos.
A circularidade, portanto, não é apenas um conceito econômico ou ambiental, mas uma lente para enxergar o mundo. Uma lente que nos convida a perceber conexões, interdependências, causas e consequências. Ao adotarmos essa perspectiva, passamos a compreender que nossas ações, por menores que pareçam, fazem parte de um sistema maior, e que cada decisão contribui para fortalecer ou fragilizar os ciclos que sustentam a vida.
Talvez, ao vermos novamente a Terra do espaço, possamos renovar os sentimentos que as imagens do programa Apollo despertaram décadas atrás de que, para além da beleza do nosso planeta, possamos compreender de forma mais profunda sua unicidade e o privilégio de fazer parte deste momento da história. Um momento em que temos não apenas a capacidade de olhar para a Terra de longe, mas também de compreender ainda mais nossa responsabilidade de cuidar dos ciclos que tornam a vida possível. A nossa própria vida possível.

*Profº Drº Edson Grandisoli
Embaixador do Movimento Circular, é Mestre em Ecologia, Doutor em Educação e Sustentabilidade pela Universidade de São Paulo (USP), Pós-Doutor pelo Programa Cidades Globais (IEA-USP) e especialista em Economia Circular pela UNSCC da ONU. É também co-idealizador do Movimento Escolas pelo Clima, pesquisador na área de Educação e editor adjunto da Revista Ambiente & Sociedade.
