
12/05/2026
Do escapamento ao ciclo de vida: Programa MOVER coloca reciclagem veicular no centro da economia circular brasileira
Por Flávio de Miranda Ribeiro
A economia circular entrou de vez na pauta da indústria automotiva brasileira. Um dos sinais mais claros desse movimento apareceu na 6ª reunião do Fórum Nacional de Economia Circular (FNEC), realizada em maio de 2026, com participação do Movimento Circular como convidado.
Na ocasião, representantes do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) apresentaram avanços do Programa Mobilidade Verde e Inovação (MOVER) relacionados à reciclagem veicular. Mais do que um novo programa governamental, o MOVER representa uma mudança importante de paradigma: amplia o olhar da sustentabilidade automotiva para além das emissões do escapamento e passa a considerar todo o ciclo de vida do veículo.
O que é o MOVER?
Criado pela Lei nº 14.902/2024, o MOVER substituiu o antigo Rota 2030 e se tornou a principal política industrial automotiva do país, com foco em descarbonização, inovação, eficiência energética e competitividade. Para a agenda da circularidade, porém, o grande destaque é a inclusão inédita da reciclabilidade dos veículos entre os requisitos do setor automotivo brasileiro.
Na prática, isso significa que os veículos precisarão ser concebidos considerando desmontagem facilitada, reaproveitamento de componentes, recuperação de materiais, potencial de reciclagem ao final da vida útil e mecanismos robustos de rastreabilidade.
Segundo a apresentação realizada no FNEC, o programa incorpora uma lógica de projeto circular, favorecendo veículos planejados para desmontagem e recuperação de materiais. Trata-se de um avanço importante em relação ao histórico das políticas públicas do setor, tradicionalmente concentradas nas emissões veiculares durante a fase de uso, como ocorre no PROCONVE — programa criado em 1986 e que até hoje é fundamental para a melhoria da qualidade do ar no país.
O MOVER, no entanto, amplia essa visão ao adotar uma abordagem “do berço ao túmulo”, considerando impactos ambientais desde a extração de matérias-primas até o destino pós-consumo dos veículos. Essa lógica aproxima o Brasil das discussões internacionais mais recentes sobre pensamento de ciclo de vida, economia circular e responsabilidade do produtor.
E isso não é detalhe. Veículos são verdadeiros “estoques móveis” de materiais valiosos, como aço, alumínio, cobre, vidro, plásticos de alto desempenho e até metais críticos presentes em componentes eletrônicos. Recuperar o valor desses materiais, ou melhor ainda das próprias peças e componentes, significa transformar resíduos em fontes estratégicas de peças e matéria-prima secundária.
Os três pilares da reciclagem veicular no MOVER
Durante a apresentação ao FNEC, o MDIC estruturou a política em três pilares principais:
1. Reciclabilidade: O primeiro passo é medir quanto do veículo pode efetivamente ser reciclado, utilizando métricas alinhadas a normas internacionais e requisitos técnicos, como manuais obrigatórios de desmontagem e identificação de componentes. Além de aumentar a recuperação de materiais, isso tende a estimular a profissionalização da desmontagem automotiva, reduzindo a informalidade e fortalecendo uma cadeia estruturada de recuperação;
2. Recuperabilidade: O segundo pilar amplia o foco para reutilização, remanufatura e recuperação de componentes e materiais nobres. A ideia é aproximar o setor automotivo brasileiro de estratégias de mineração urbana e simbiose industrial, priorizando a extração do máximo valor possível dos veículos em fim de vida, e
3. Compensação antecipada de materiais: Este talvez seja o elemento mais inovador do modelo apresentado até agora. A proposta cria um sistema de créditos baseado em comprovação física e rastreável da reciclagem realizada, por meio das chamadas Unidades de Reciclagem Veicular (URVs), que funcionam como unidades contábeis padronizadas que representam quantidades efetivamente recicladas de material automotivo.
Como funciona essa lógica?
Na lógica apresentada pelo MDIC, após chegar ao fim de vida o veículo é encaminhado a um operador credenciado, responsável pela baixa formal, desmontagem e recuperação adequada de peças e materiais. Esses itens são então mensurados, rastreados e auditados para emissão dos créditos correspondentes.
O diferencial está justamente na rastreabilidade, pois o crédito só nasce a partir da reciclagem efetivamente realizada, diferenciando o modelo de sistemas puramente declaratórios.
Embora o modelo ainda esteja em desenvolvimento, incluindo fatores de equivalência por tipo de material e sistemas de rastreabilidade de ponta a ponta, seu potencial é significativo. O Brasil possui uma frota envelhecida, um mercado robusto de peças usadas e reciclagem metálica, além de crescente demanda global por materiais críticos.
Quais os benefícios e desafios?
Os benefícios esperados incluem maior formalização da reciclagem veicular, aumento da recuperação de materiais estratégicos, estímulo a novos modelos de negócio e integração com metas climáticas e de descarbonização.
Ao mesmo tempo, os desafios são relevantes: será necessário desenvolver sistemas robustos de rastreabilidade, credenciar operadores, harmonizar bases de dados, fortalecer a fiscalização e garantir segurança jurídica para todos os atores envolvidos.
Ainda assim, a principal mensagem trazida pelo MDIC no FNEC é clara: o MOVER inaugura uma nova fase da política industrial brasileira, mostrando que circularidade e competitividade não só podem como devem caminhar juntas.
Ao colocar reciclabilidade, recuperação de materiais e rastreabilidade no centro da política automotiva, o Brasil dá um passo importante para transformar a forma como produz, utiliza e recupera veículos nas próximas décadas. Agora é circular para ver.

É Consultor e Professor em Economia Circular, Logística Reversa e Regulação Ambiental Empresarial. Engenheiro Mecânico, especialista em Gestão e Tecnologias Ambientais e Análise Pluridisciplinar do Estado do Mundo. Mestre em Energia e Doutor em Ciências Ambientais. Conselheiro para Economia Circular do Pacto Global da ONU. Professor na Pós-Graduação em Direito Ambiental Internacional da Universidade Católica de Santos, na FIA Business School e na Trevisan Escola de Negócios.
