
15/07/2026
Caminhos para um futuro mais leve
Prof. Dr. Edson Grandisoli
Inspirado no conceito de pegada ecológica originado na década de 1990, o Dia da Sobrecarga da Terra foi lançado globalmente em 2006, a partir de uma ideia de Andrew Simms, da New Economics Foundation, em parceria com a Global Footprint Network. A data marca o momento do ano em que a demanda humana por recursos naturais ultrapassa a capacidade da Terra de regenerá-los naquele mesmo ano. Desde sua criação, ele tem sido amplamente divulgado como um dos principais indicadores sobre saúde planetária pela sua clareza e didatismo. Em 54 anos de estimativas, fica claro nosso impacto sobre o planeta. Atualmente, vivemos praticamente meio ano no vermelho em termos de uso dos recursos naturais e geração de resíduos. Apesar da clara tendência da imagem a seguir, de 2025 para 2026, entretanto, o Dia da Sobrecarga atrasou do dia 24 de julho para o dia 30 de julho, fato que ocorreu apenas 15 vezes ao longo de 54 anos.

Dia da sobrecarga da Terra (1971-2025)
A leitura mais honesta sobre a saúde planetária, hoje, precisa combinar duas ideias: o quadro geral ainda é grave, mas há indicadores que mostram que mudanças positivas são possíveis quando há ciência, regulação, investimento e cooperação internacional. Ou seja, estamos ainda diante de uma virada estrutural suficiente, mas há sinais concretos de que algumas frentes respondem quando diferentes atores sociais agem com escala e continuidade.
Nesse sentido, o Dia da Sobrecarga da Terra de 2026 pode ajudar a construir uma mensagem mais positiva. À primeira vista, isso parece uma melhora direta, mas a própria Global Footprint Network alerta que essa mudança decorre principalmente de revisões metodológicas, e não de uma redução real da pressão humana sobre os sistemas naturais. Na verdade, as tendências reais do último ano teriam antecipado a data em dois dias; a combinação entre revisão de dados e piora real resultou no saldo aparente de seis dias a mais. Portanto, a mensagem correta é: há um respiro no calendário, mas ainda não uma redução substantiva da sobrecarga ecológica. Ainda assim, se você é daqueles que gosta sempre de olhar para a metade do copo cheia, é importante reconhecer e celebrar os progressos.
O exemplo mais icônico é o da regeneração da camada de ozônio. O Protocolo de Montreal (1987) levou à eliminação de mais de 99% da produção e do uso de substâncias que destroem o ozônio, que segue em trajetória de recuperação, com retorno estimado aos níveis de 1980 por volta de 2040 na maior parte do mundo, 2045 no Ártico e 2066 sobre a Antártica, caso as políticas atuais sejam mantidas. Esse é talvez o melhor exemplo contemporâneo de sucesso em uma política ambiental: um problema planetário identificado pela ciência, enfrentado por acordo internacional, regulação, inovação tecnológica e monitoramento contínuo.

Os níveis de ozônio se estabilizaram na década de 1990, após o Protocolo de Montreal, e começaram a se recuperar. A projeção é que retornem aos níveis anteriores a 1980 antes de 2075. (svs.gsfc.nasa.gov/30602)
Outro movimento positivo vem da transição energética. Em 2024, as novas instalações de energia renovável atingiram recorde pelo 22º ano consecutivo, com cerca de 700 GW de nova capacidade adicionada, sendo quase 80% de energia solar fotovoltaica. Além disso, renováveis e energia nuclear responderam por 40% da geração elétrica global pela primeira vez, com as renováveis sozinhas chegando a 32%. Isso não significa que as emissões globais já estejam caindo na velocidade necessária, nem que a matriz energética global tenha se tornado sustentável. Mas mostra que a substituição tecnológica já saiu da margem e passou a ocupar o centro da expansão elétrica mundial.
Também há avanços sociais diretamente ligados à saúde planetária. O acesso à eletricidade chegou a quase 92% da população mundial em 2023, com 19 milhões de pessoas a menos sem eletricidade em relação ao ano anterior. No mesmo campo, o acesso a soluções limpas de cocção ainda é insuficiente, mas cresceu em relação às últimas décadas, reduzindo a exposição de muitas famílias à poluição doméstica. Esses indicadores importam porque saúde planetária não é apenas conservação da natureza: é também a construção de condições de vida mais seguras, menos poluentes e menos vulneráveis para as populações humanas.
Há ainda uma melhora parcial na proteção de áreas naturais. Em 2024, 17,6% das terras e águas interiores e 8,4% dos oceanos e áreas costeiras estavam em áreas protegidas ou conservadas. É pouco diante da meta internacional de proteger 30% do planeta até 2030, e a qualidade da gestão dessas áreas ainda varia muito. Mesmo assim, o avanço demonstra que a conservação ganhou espaço na agenda global e que existe uma base institucional sobre a qual é possível acelerar a proteção da biodiversidade.
Com relação às emissões de poluentes, há dois sinais positivos relevantes. O primeiro é a eliminação global da gasolina com chumbo, anunciada pelo PNUMA, em 2021, após uma campanha internacional de 19 anos. Estima-se que a medida evita mais de 1,2 milhão de mortes prematuras por ano.
O lado mais positivo não é reconhecer que “está tudo melhorando”. O lado positivo está em reconhecer que já sabemos como melhorar. Quando há metas claras, ciência de qualidade, dados públicos, pressão social, políticas consistentes, financiamento e alternativas tecnológicas, indicadores planetários respondem. A camada de ozônio se recupera. A energia limpa cresce. O acesso à eletricidade avança. Algumas formas de poluição são reduzidas. Esses avanços ainda são pequenos diante da escala das múltiplas crises atuais, mas são grandes o suficiente para provar que a mudança não é utópica e que já está acontecendo em várias frentes e pode ser ampliada.
Por isso, o Dia da Sobrecarga da Terra de 2026 deve ser lido como um convite à reflexão, mobilização e corresponsabilidade. O fato de a data aparecer seis dias mais tarde ajuda a comunicar que é possível “mover a data”, mas a própria Global Footprint Network deixa claro que 2026 ainda representa o maior nível de sobrecarga ecológica já registrado. O desafio agora é transformar avanços pontuais em tendências reais em escala.
Referências
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WORLD METEOROLOGICAL ORGANIZATION. WMO Bulletin shows successful recovery of ozone layer, driven by science. Geneva: WMO, 2025. Disponível no site da WMO. Acesso em: 29 jun. 2026.

*Profº Drº Edson Grandisoli - Embaixador e coordenador pedagógico do Movimento Circular, é Mestre em Ecologia, Doutor em Educação e Sustentabilidade pela Universidade de São Paulo (USP), Pós-Doutor pelo Programa Cidades Globais (IEA-USP) e especialista em Economia Circular pela UNSCC da ONU. É também co-idealizador do Movimento Escolas pelo Clima, pesquisador na área de Educação e editor adjunto da Revista Ambiente & Sociedade.
