
27/08/2026
Um modelo de produção que não termina no descarte
Por Kumiko Oshio Kissimoto *
A forma como produzimos, consumimos e utilizamos os recursos naturais vem passando por uma transformação necessária. Em um cenário de recursos finitos, mudanças climáticas e crescente geração de resíduos. Repensar a lógica tradicional de produção e consumo tornou-se um desafio que envolve empresas, governos, pesquisadores e toda a sociedade.
É nesse contexto que ganha força a Economia Circular, uma abordagem que propõe transformar a relação com produtos e materiais, mantendo seu valor e sua utilidade em circulação pelo maior tempo possível e, ao mesmo tempo, buscando regenerar os sistemas naturais.
Mas de onde surgiu esse conceito? Quais são seus princípios? E qual é o papel da pesquisa na construção de modelos de negócios mais circulares? Para compreender essas questões, é importante olhar para a trajetória que levou a Economia Circular ao centro das discussões sobre sustentabilidade e transformação dos sistemas produtivos.
A primeira menção a um modelo de produção que fosse circular é atribuída a Pearce e Turner, que, em 1989, ao perceberem que a utilização de matérias-primas e energia na produção de bens estava sendo muito maior do que a capacidade regenerativa da natureza, sugeriram que os sistemas econômicos de então não seriam sustentáveis ao longo do tempo.
Em 2002, o tema volta à cena quando o químico Michael Braungart e o arquiteto William McDonough publicam o livro Cradle to Cradle, defendendo que produtos e processos deveriam repensar seu design para preservar e prolongar o potencial de reaproveitamento dos materiais após o consumo.
É somente a partir de 2010, porém, que o termo Economia Circular começa a ganhar maior popularidade, quando a velejadora Ellen MacArthur, ao dar a volta ao mundo em 2005 com seu veleiro, percebe a finitude dos recursos naturais e a necessidade de criar mecanismos para conter a rápida degradação da natureza. Assim, cria a Fundação Ellen MacArthur, que tem como objetivo fomentar e incentivar caminhos para que organizações e sociedade assumam formas mais sustentáveis de produção e consumo.
A Economia Circular é um modelo de produção que busca estender ao máximo a vida útil e o valor de produtos e materiais, mantendo-os em circulação pelo maior tempo possível. Ela se contrapõe ao modelo tradicional — extrair, produzir, consumir e descartar — ao propor uma lógica regenerativa baseada em três princípios fundamentais: eliminar resíduos e poluição desde o princípio; manter produtos e materiais em ciclos de uso prolongados; e regenerar os sistemas naturais.
É um modelo que busca reduzir de forma radical a extração de matérias-primas e o desperdício por meio de mudanças no design de produtos, nos processos produtivos e nos modelos de negócio.
Mas, na prática, como empresas e sociedade podem aderir a um modelo de produção e de vida mais alinhado à lógica circular?
Em 2016, Stahel publicou um estudo em que afirma que um modelo de Economia Circular pode ser alcançado quando a vida útil de um produto é prolongada por meio de práticas como reparo, reutilização, remanufatura e reciclagem. Essas práticas, ao longo do tempo, têm sido realizadas de forma isolada por indivíduos e também por entidades e organizações que buscam avançar nos princípios da sustentabilidade. A diferença, em um modelo de negócio circular, é que essas práticas estão incorporadas ao projeto do produto e consideradas ao longo de sua cadeia de suprimentos e distribuição desde o início.
Ainda temos muito a avançar. Modelos de produção que incorporem os princípios da Economia Circular demandam pesquisas em inovação de materiais, processos e modelos de negócios. Também demandam estudos que comprovem para empresas e governos que a circularidade é economicamente viável, capaz de gerar novos conhecimentos e mercados de trabalho, equilibrando eficiência e lucratividade, preservando, ao mesmo tempo, os recursos naturais para as gerações no presente e no futuro.

Kumiko Oshio Kissimoto - É docente e pesquisadora do Departamento Acadêmico de Administração da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e do Programa de Pós-graduação em Administração (PPGA): Transformação Digital e Sustentabilidade nas Organizações e Sociedade, Chefe do Departamento Acadêmico de Administração. Instagram
As informações e opiniões apresentadas nesta publicação são de responsabilidade da autora e não refletem, necessariamente, o posicionamento institucional do Movimento Circular.
