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Como a transformação digital pode ser instrumento para a circularidade
Cláudia Terezinha Kniess, da Unifesp, mostra como inteligência artificial, internet das coisas e análise de dados apoiam rastreabilidade, reparo, remanufatura e novos modelos de negócio.
Cláudia Terezinha Kniess, da Unifesp· · 6 min de leitura
Por Cláudia Terezinha Kniess *
A transformação digital tem modificado a forma como as organizações funcionam, tomam decisões, desenvolvem produtos e serviços e se relacionam com a sociedade. Mais do que adotar novas tecnologias, transformar digitalmente significa repensar processos, modelos de gestão, estratégias e formas de gerar valor.
Da mesma maneira, a sustentabilidade não se limita à preservação ambiental. Ela também envolve dimensões econômicas, sociais e institucionais. Uma organização sustentável deve buscar eficiência e desempenho, mas também responsabilidade ambiental, inclusão social, transparência e compromisso com os impactos de suas atividades.
Nesse contexto, a Economia Circular amplia essa discussão ao propor uma forma de produção e consumo baseada no uso mais eficiente dos recursos, na redução da geração de resíduos, na manutenção de produtos e materiais em uso pelo maior tempo possível e na recuperação de valor ao longo dos ciclos produtivos. Diferentemente de uma lógica predominantemente linear, baseada em extrair, produzir, consumir e descartar, a perspectiva circular procura considerar os recursos, produtos e materiais ao longo de todo o seu ciclo de vida.
Tecnologia como aliada da circularidade
A transformação digital pode exercer um papel importante nessa transição. Tecnologias como inteligência artificial, internet das coisas, computação em nuvem, automação e análise de dados permitem ampliar a capacidade das organizações de coletar, integrar e analisar informações relacionadas aos seus processos, produtos e recursos. Essas tecnologias podem contribuir para identificar desperdícios, melhorar a eficiência operacional, acompanhar o consumo de materiais e energia e apoiar decisões voltadas ao melhor aproveitamento dos recursos.
A digitalização também pode favorecer a rastreabilidade de produtos, componentes e materiais ao longo das cadeias produtivas. Quando uma organização conhece a origem, a composição, o uso, a manutenção e o destino de determinado produto, torna-se possível dispor de informações mais adequadas para decisões relacionadas ao seu reaproveitamento, reparo, remanufatura, reciclagem ou reinserção em novos ciclos produtivos.
Outro aspecto importante está relacionado à extensão da vida útil dos produtos. Sensores, sistemas conectados e ferramentas de análise de dados podem apoiar o acompanhamento das condições de uso e funcionamento de equipamentos e produtos, possibilitando estratégias de manutenção e melhor utilização dos ativos. Nesse sentido, a transformação digital deixa de estar associada apenas à eficiência dos processos internos e passa também a oferecer instrumentos para a gestão dos produtos e recursos ao longo do tempo.
A combinação entre transformação digital e Economia Circular também cria possibilidades para o desenvolvimento de novos modelos de negócio. Sistemas digitais podem apoiar modelos baseados em compartilhamento, serviços, reutilização, recuperação de produtos e maior integração entre diferentes participantes das cadeias de valor. A informação passa, portanto, a exercer papel relevante para conectar organizações, consumidores, fornecedores e demais atores envolvidos nos ciclos de produção e consumo.
Entretanto, a adoção de tecnologias não produz resultados sustentáveis automaticamente. A própria transformação digital pode gerar novos desafios relacionados ao consumo de energia, à utilização de equipamentos, à geração de resíduos eletrônicos e à necessidade de infraestrutura tecnológica. Por isso, as decisões sobre digitalização precisam estar alinhadas aos objetivos estratégicos das organizações e aos seus compromissos com a sustentabilidade e com o uso responsável dos recursos.
Não basta avaliar apenas o retorno financeiro de uma solução tecnológica. Também é necessário considerar seus efeitos sobre as pessoas, o meio ambiente, os processos internos, o uso de recursos e a sociedade. A liderança exerce um papel fundamental nesse processo. Cabe aos gestores promover uma cultura de inovação responsável, preparar as equipes para as mudanças e estabelecer critérios claros para a adoção e a avaliação de novas tecnologias.
A transformação digital orientada à sustentabilidade e à circularidade exige, portanto, planejamento, governança, participação e responsabilidade. Para as organizações, essa integração representa uma oportunidade de inovar considerando não apenas a geração de valor econômico, mas também a forma como recursos, produtos e materiais são utilizados ao longo dos processos produtivos.
Para a sociedade, representa a possibilidade de utilizar conhecimento e tecnologia na construção de soluções mais inclusivas, resilientes e sustentáveis. Transformação digital, sustentabilidade e Economia Circular não devem, portanto, ser tratadas como agendas isoladas. Quando articuladas, podem contribuir para novos modelos de gestão, produção, consumo e desenvolvimento social.
O avanço tecnológico, nessa perspectiva, não está apenas na criação de tecnologias mais sofisticadas, mas também na capacidade de utilizá-las de forma ética, responsável e orientada à transformação dos atuais modelos de produção e consumo. A tecnologia pode apoiar essa mudança ao tornar informações disponíveis, ampliar a capacidade de acompanhamento dos processos e fornecer instrumentos para decisões relacionadas ao uso e à circulação dos recursos.
Conhecimento e pesquisa para a transformação
As Instituições de Ensino Superior e seus Programas de Pós-graduação têm papel estratégico na Transformação Digital e na Sustentabilidade das Organizações e da Sociedade, pois articulam formação e qualificação de pessoas, produção científica, inovação e aplicação do conhecimento. A universidade contribui para a formação de profissionais capazes de compreender e utilizar tecnologias digitais de maneira integrada às demandas econômicas, sociais e ambientais. Além disso, constitui um espaço de pesquisa e desenvolvimento de soluções para problemas relacionados à eficiência organizacional, uso responsável de recursos, inclusão, qualidade de vida e desenvolvimento sustentável.
Na perspectiva da Economia Circular, essa atuação também envolve a produção de conhecimento capaz de apoiar novas formas de utilização de materiais e recursos, desenvolvimento de tecnologias, modelos organizacionais e estratégias que favoreçam a circularidade. A pesquisa acadêmica pode contribuir para compreender tanto as possibilidades quanto as limitações da transformação digital nesse processo, avaliando seus impactos nas organizações, nas cadeias produtivas e na sociedade.
A Pós-graduação amplia essa atuação por meio da formação avançada de pesquisadores e profissionais capazes de investigar problemas complexos, propor novos modelos, desenvolver tecnologias e avaliar seus impactos potenciais e reais nas organizações e na sociedade. Nesse contexto, destaca-se a contribuição do Programa de Pós-graduação em Administração: Transformação Digital e Sustentabilidade nas Organizações e Sociedade da Universidade Federal de São Paulo na formação e qualificação de talentos humanos envolvendo essas temáticas.
Por fim, é importante destacar a articulação entre transformação digital, Economia Circular e sustentabilidade no contexto dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030. As tecnologias digitais podem apoiar a transição para modelos de produção e consumo mais eficientes e responsáveis, contribuindo para o uso mais racional dos recursos, a redução de desperdícios, a rastreabilidade de materiais e produtos e a melhoria dos processos de tomada de decisão. Essa articulação apresenta relação direta com o ODS 12 — Consumo e Produção Responsáveis, pela sua proximidade com os princípios da Economia Circular e com a busca por padrões mais sustentáveis de produção e consumo. Também se relaciona aos ODS 4 (Educação de Qualidade), 8 (Trabalho Decente e Crescimento Econômico), 9 (Indústria, Inovação e Infraestrutura), 11 (Cidades e Comunidades Sustentáveis), 13 (Ação Contra a Mudança Global do Clima) e 17 (Parcerias e Meios de Implementação), evidenciando o caráter transversal dessa integração e sua contribuição para diferentes dimensões do desenvolvimento sustentável.
Esta publicação integra a parceria entre o Movimento Circular com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) para a produção e disseminação de conhecimento sobre Economia Circular. As opiniões expressas são de responsabilidade da autora e não refletem, necessariamente, o posicionamento institucional do Movimento Circular.

* Cláudia Terezinha Kniess - É docente e pesquisadora do Departamento Acadêmico de Administração da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e coordenadora do Programa de Pós-graduação em Administração: Transformação Digital e Sustentabilidade nas Organizações e Sociedade (PPGA-TSO). Instagram
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citar este artigo
CLÁUDIA TEREZINHA KNIESS, DA UNIFESP. Como a transformação digital pode ser instrumento para a circularidade. Movimento Circular, 28 de setembro de 2026. Disponível em: https://movimentocircular.io/blog/como-a-transformacao-digital-pode-ser-instrumento-para-a-circularidade.
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